Tomando a decisão sustentável

Por Francisco Szekely

Cada vez mais as empresas discutem a sustentabilidade, mas exatamente o quê elas querem dizer? Embora muitas pessoas definam práticas sustentáveis como aquelas que beneficiam a sociedade, a sustentabilidade corporativa é reduzida, frequentemente, à minimização de danos ao meio ambiente. Assim, as empresas têm adotado medidas como a redução de materiais e do consumo de energia, e o uso de artigos reciclados.

As empresas não têm enfrentado muitas dificuldades para mudar suas práticas para se tornarem socialmente mais responsáveis. A redução da quantidade de energia e materiais utilizados na fabricação de um produto gera significativas economias de custo. Como resultado, a grande maioria das empresas tem alterado sua cadeia de suprimentos e operações para tirar proveito desta “fruta de fácil colheita”.

A iniciativa “ecomaginação” da General Electric é um bom exemplo de como uma empresa pode tornar a si mesma, e a seus consumidores, mais sustentável ao impulsionar o crescimento econômico. Estas inovações incluem motores a gás natural, baterias de sódio e sistemas de captação de carbono, que minimizam os impactos no meio ambiente enquanto aumentam a eficiência.

Outro exemplo é a garrafa plástica de água “Eco-Fina”, da Aquafina, produzida com 50% menos plástico e que, consequentemente, tem metade do peso. A Aquafina teve economias não só nos custos dos materiais, mas também nas despesas com transporte, restringindo, portanto, as emissões de CO2.

A sustentabilidade além da rentabilidade

Há empresas que não dão a importância devida às práticas sustentáveis, considerando a sustentabilidade como sinônimo de rentabilidade. Mas o que acontece quando elas precisam ir um pouco além? Quando chegar o momento, elas estarão dispostas a tomar decisões mais difíceis e dispendiosas que beneficiarão a sociedade? Se tomarmos como base a escolha recente da J.P. Morgan Chase & Co., de não mais participar do mercado de empréstimo estudantil nos EUA, os sinais não são promissores.

No início de 2013, um relatório da FICO destacou crescentes quantidades de empréstimos e taxas de inadimplência no mercado norte-americano de empréstimos estudantis. De acordo com Andrew Jennings, diretor de análise e laboratórios da FICO, “esta situação é simplesmente insustentável”. Embora a afirmação não seja surpreendente a princípio, ela representa uma tendência crescente no discurso corporativo de equiparar sustentabilidade e rentabilidade. Se algo que é essencial para beneficiar a sociedade, como o financiamento da educação, deixa de ser rentável, isto significa que o setor privado simplesmente deve abandoná-lo?

Thasunda Duckett, diretora executiva de empréstimos estudantis da J.P. Morgan Chase, afirmou que o maior banco norte-americano está se retirando do setor de empréstimos estudantis dos EUA porque “simplesmente não vemos este como um mercado no qual podemos crescer de modo significativo”. Segundo recentes relatórios da FICO, o próprio mercado está em expansão, porém, sua rentabilidade está em queda. De forma semelhante, o US Bancorp parou de aceitar pedidos de empréstimo estudantil em março do ano passado, assim como bancos norte-americanos menores também estão debandando do mercado.

O aumento dos pedidos de empréstimos estudantis pode ser atribuído à situação econômica dos EUA e aos custos de ensino cada vez maiores. Mas com os empréstimos federais Stafford limitados a US$ 31 mil e os custos da educação em crescimento devido ao aumento da demanda, onde os estudantes poderão obter empréstimos adicionais para cobrir suas necessidades se não for junto aos bancos privados? À medida que famílias de baixa renda enfrentam maior dificuldade para financiar suas casas e, agora, para educar seus filhos, a decisão por parte dos bancos de abandonar o mercado seria a mais “sustentável” ou simplesmente a mais rentável? E com base em qual perspectiva de tempo a rentabilidade está sendo avaliada?

Pensando no futuro

Algumas empresas e indústrias como um todo são obrigadas a expandir suas perspectivas de tempo visando à rentabilidade. O setor farmacêutico é um bom exemplo. Seus produtos exigem um custo inicial significativo e enfrentam riscos elevados de fracasso, mas resultam em soluções que beneficiam, em muito, a sociedade. Embora a indústria de medicamentos seja alvo de muitas críticas, ela oferece pistas sobre como os ganhos em curto prazo podem ser sacrificados visando à rentabilidade no longo prazo para promover a sustentabilidade.

A noção de “capital paciente” é proeminente na área do desenvolvimento internacional, no qual os investimentos são feitos com um panorama de 10, 20 ou até 50 anos, assim como na emergente área de operações bancárias sustentáveis. Estes bancos, que surgiram dos movimentos de investimento socialmente responsáveis e de microfinanciamentos, estão voltados para o investimento em empresas e organizações que visam beneficiar a sociedade. O Triodos Bank, sediado na Holanda, investe apenas em iniciativas sustentáveis, avaliando como beneficiarão a sociedade antes de determinar sua viabilidade financeira. O banco também aboliu os bônus para assegurar que os funcionários (ou “colegas de trabalho”, como são chamados no Triodos) não sejam financeiramente incentivados a tomar decisões não sustentáveis.

Foco na sociedade, não mais no lucro

A mudança de uma perspectiva com foco no lucro para uma com foco na sociedade exige noções de tempo mais longos, assim como produtos e modelos de negócios inovadores. As empresas geralmente inovam rapidamente se for para aumentar sua rentabilidade no curto prazo, como pudemos ver no desenvolvimento de títulos hipotecários e derivativos que levaram à crise financeira global. No entanto, as empresas precisam agora começar a focar inovações que realmente beneficiem a sociedade. Ao ampliar o período para se obter retornos de investimento e priorizar a sustentabilidade em detrimento da rentabilidade, as empresas passam a promover um futuro promissor para si mesmas e para as sociedades ao seu redor.

Francisco Szekely é professor de Leadership and Sustainability da Sandoz Family Foundation e diretor do Global Center for Sustainability Leadership (CSL) no IMD.




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