Sue Howells

Verde com transparência

Por Cristina Tavelin

Na medida em que uma nova economia global se desenvolve e desafios relacionados às mudanças climáticas necessitam de soluções compartilhadas, é fundamental que as empresas mensurem e relatem suas ações de mudança para um modelo sustentável. Para falar sobre as perspectivas de atuação da Carbon Disclosure Project (CDP), Sue Howells, diretora de Operações Globais da organização, conversou com Ideia Sustentável durante sua passagem pelo Brasil para o lançamento do CDP Investors 2011.

A organização, que reúne dados socioambientais fornecidos pelas empresas e as classifica por sua performance, lançou recentemente outros dois documentos: o CDP Global 500 e o Relatório Carbon Disclosure Project Brasil 2011. Confira a seguir alguns achados desses estudos e os próximos passos para uma economia mais transparente.

Ideia Sustentável: Quais são os principais resultados dos novos estudos do CDP?

Sue Hewells: Desde 2004, começamos a classificar a qualidade da informação que as empresas nos fornecem. Ainda não iniciamos esse processo no Brasil – somente com as 10 empresas nacionais inseridas no grupo global, entre elas a Vale. Atualmente, contamos com 54 organizações do G8. Um dos resultados mais importantes do CDP Global 500 de 2011 foi que, pela primeira vez em 10 anos, grandes companhias afirmaram incorporar as mudanças climáticas em sua estratégia de negócios; 93% delas possuem um membro de sua equipe ou executivo sênior comprometido com o tema. Também descobrimos que as empresas estão economizando com a inserção da sustentabilidade em sua estratégia, particularmente por meio da eficiência energética. A SAP, da área de TI, reduziu suas emissões de carbono em 25% de 2005 a 2007, evitando gastos de 185 milhões de euros nesse período.

IS: Sobre a operação mundial do CDP, quais os próximos países e metas que a organização deseja alcançar?

SH: A Ásia é uma região muito importante a ser trabalhada. E o México, provavelmente, representará um próximo passo também importante para a organização. Mas nossa meta não está ligada necessariamente à expansão para mais países, e sim à abrangência do trabalho sobre questões como cadeia produtiva. Em 2008, criamos o Supply Chain Program com essa finalidade. Estamos estendendo o reporte de disclosure para as pequenas e médias empresas fornecedoras. Estivemos recentemente com a Natura, empresa em que 75% das emissões concentram-se na cadeia produtiva. Temos trabalhado com companhias brasileiras desde 2006 nesse sentido, e obtido bons resultados. As organizações daqui estão acostumadas a divulgar suas ações por elas mesmas e prontas para dar o próximo passo. Já na China, existe um número muito pequeno de organizações reportando suas atividades – e descobrimos que teremos sucesso não buscando o engajamento dessas empresas como membros, mas sim por meio das multinacionais abastecidas por elas. Se o Walmart pedir para seus fornecedores chineses preencherem o questionário, eles o farão.

IS: O CDP enxerga desafios mais específicos para os países em desenvolvimento?

SH: Um dos maiores desafios nesses países é lidar com o desejo de crescer. Há oportunidades comerciais para isso acontecer de forma sustentável. Na China, por exemplo, a indústria de energia solar prospera exponencialmente. O caminho a seguir é identificar as empresas que saibam aproveitar a oportunidade para serem sustentáveis. Essa será a próxima revolução industrial. A partir da nossa experiência com os BRICS, vemos África do Sul e Brasil liderando esse movimento, a Índia numa posição intermediária e China e Rússia deixando a desejar. Uma particularidade no Brasil é o grande suporte das instituições financeiras. O CDP se interessa pelas comunidades de investidores, pois são eles que possuem o capital e, com isso, podem exercer uma influencia construtiva e aumentar a conscientização. É importante que todos estejam requisitando informações socioambientais, obrigando as empresas a buscar formas de incorporá-los em sua estratégia.

IS: Há mais dificuldades para disseminar questionários relacionados a temas que requerem novos tipos de métrica, como recursos hídricos?

SH: Sim. Com o carbono, temos trabalhado com GHG Protocol, uma metodologia clara que torna mais fácil a comparação de dados. Em relação à água, contamos com a World Wildlife Fund (WWF), World Resources Institute (WRI) e outras instituições. Temos algumas empresas publicando dados hídrocos, mas ainda não podemos classificar suas respostas, pois não há uma metodologia em comum. É preciso dar um passo de cada vez.

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